Luiz Carlos Gá (Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 1947 – 26 de fevereiro de 2023), conhecido como Gá, foi artista plástico, designer gráfico, empreendedor, professor e militante do movimento negro no Brasil. Reconhecido por sua visão sarcástica da humanidade e suas ideias de enfrentamento ao racismo estrutural, traduzidas em marcas icônicas que valorizavam o protagonismo negro.

Biografia Filho de Zélia Gonçalves e Ari Bartolomeu de Almeida, Gá demonstrou interesse pelo desenho desde a infância, cresceu nos bairros Marechal Hermes, Cascadura e Zona Norte do Rio de Janeiro. E seu contato inicial com as artes ocorreu no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), onde conheceu artistas como Casemiro do Nascimento Ramos Filho (1905–1976). Posteriormente, ingressou no curso de desenho industrial na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Durante a ditadura militar, precisou abandonar o curso em razão de sua militância política no movimento negro, o que o levou a sofrer perseguição policial. Formou-se em design gráfico pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também atuou como professor. Lecionou ainda na Escola de Artes Gráficas do Senai, nas Faculdades Integradas Silva e Souza e na Universidade Estácio de Sá. Foi integrante de diversas organizações do movimento negro e exerceu a presidência do Conselho Executivo do Instituto Palmares de Direitos Humanos (IPDH). Sua carreira esteve ligada às questões raciais e ao uso do design como instrumento de afirmação cultural. Com a transição do analógico para o digital, migrou dos pincéis para as artes gráficas, criando cartazes e logotipos para instituições do movimento negro.Durante 1970 e 1980 o Brasil vivia num contexto de intensas mobilizações que buscam evidenciar e cobrar os direitos em um cenário marcado pelo mito da democracia racial. Assim, Gá passou a integrar o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) junto a grandes nome: Márcia Leivas, Júlio César Tavares, Sami Hassan, Vanusa e Sandra Almada. O IPCN foi fundado em 1975 como espaço de estudo e preservação e a difusão da cultura negra na época. Um dos principais projeto do instituto foi o jornal “Contraste”, que tinha como objetivo divulgar debates sobre a população negra no Brasil, onde Gá atuou na diagramação e na parte gráfica do jornal. Em paralelo, Luiz Carlos Gá retomou aos estudos ingressando no curso de Comunicação Visual, que concluiu em 1986 na UFRJ. No seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), elaborou a identidade visual de um festival de música intitulado "I Festival do Pagode", onde para além do projeto visual, também abordou questões estratégicas econômicas e burocráticas que viabilizaram o projeto.Gá também fundou o arte e produção LTDA, escritório gráfico que permaneceu ativo por quase uma década desenvolvendo diversos projetos, dentre eles, o logotipo do Bloco Afro Alaafin Ayê em 1988. Em 1987, desenhou uma coleção de ilustrações “brincadeiras populares”, onde destacava as mãos e os pés que para ele eram formas simbólicas da construção do negro no Brasil. No mesmo ano, Gá participou de mobilizações do Centenário da Abolição da Escravatura em 1988. Tendo seu cartaz oficializado e institucionalizado pelo Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) com a inclusão da frase “IPCN - 13 anos - Coragem de dizer”. Há vestígios de que ainda no contexto do Centenário da Abolição, ele também criou um cartaz para o Ministério da Cultura. Em 1988, nesse mesmo período de mobilização, Luiz Carlos Gá cria um cartaz "A marcha contra a farsa da abolição", convocando o movimento negro do Rio de Janeiro a se reunir na Candelária no Centro do Rio de Janeiro, organizada pelo IPCN, onde denunciava a falsa ideia de abolição evidenciando as desigualdades ainda fortemente vivenciadas pelo país após cem anos depois. No cartaz, Gá inseriu duas imagens que denunciavam as violência em duas décadas distintas - de 1835 “Castigos Doméstico”, do artista alemão Johann Moritz Rugengas e de 1982, uma blitz da Polícia Militar no Morro da Coroa e Cachoeirinha, reforçando no cartaz “Nada mudou” e “Vamos mudar”. O movimento contou com a participação de diversas lideranças e intelectuais negras, entre elas a deputada federal Benedita da Silva. Na década de 90, após a fundação do Instituto Palmares de Direitos Humanos (IPDH), Luiz Carlos Gá passou a integrar a organização fundada por um grupo de ativistas negros da área acadêmica com o intuito de combater o racismo, a discriminação e a intolerância. Gá esteve diretamente envolvido na construção da identidade visual da instituição. Também fundou o Coisa de Crioulo, voltada à produção de camisetas com estampas afrocentradas. Após o fim da sociedade com a parceira no negócio, criou as marcas Nota Preta e Faça a coisa certa, dando continuidade ao trabalho de moda e identidade visual afro-brasileira. Em 2014, lançou o projeto Trator de Veludo, iniciativa crítica à ausência de mobilização política contra o genocídio e a necropolítica da população negra no Brasil. Sua trajetória reuniu arte, design e militância, consolidando-o como uma das referências negras no campo do design gráfico no país.

Em 2022, publicou em parceria com Elisa Larkin Nascimento o livro Adinkra – Sabedoria em símbolos africanos, que reúne mais de 80 símbolos acompanhados de seus significados, provérbios e sentidos originais. A obra, além de valorizar essa herança ancestral, contribui para a construção de novas reflexões sobre a identidade brasileira.

Referências