Charles Davies Lederer (31 de dezembro de 1910 – 5 de março de 1976) foi um roteirista e diretor de cinema americano. Lederer é reconhecido por suas adaptações cômicas e ácidas e por seus roteiros colaborativos das décadas de 1940 e início de 1950. Seus roteiros frequentemente exploravam as influências corrosivas da riqueza e do poder. Sua escrita cômica foi considerada uma das melhores da época, e ele, juntamente com os amigos roteiristas Ben Hecht e Herman J. Mankiewicz, tornou-se um dos principais contribuidores para o gênero cinematográfico conhecido como "comédia maluca". Entre os roteiros notáveis que escreveu ou coescreveu, estão The Front Page (1931), His Girl Friday (1940), Os Homens Preferem as Loiras (1953), A Águia Solitária (1957), Ocean's 11 (1960) e Mutiny on the Bounty (1962).

Vida pregressa Charles Davies Lederer nasceu na cidade de Nova York, filho de duas figuras proeminentes do teatro americano: o produtor da Broadway George Lederer e a cantora Reine Davies. Após a separação dos pais, Lederer e sua irmã mais velha, Pepi, mudaram-se para a Califórnia e foram criados pela irmã de sua mãe, a atriz Marion Davies. Criança-prodígio, ingressou na Universidade da Califórnia em Berkeley, aos 13 anos, mas abandonou os estudos alguns anos depois para trabalhar como jornalista nos jornais do amante de sua tia William Randolph Hearst.

Carreira Aos 19 anos, Charles Lederer fez amizade com Ben Hecht, que o apresentou à elite literária de Nova York. Sua amizade com Hecht o levou a ser contratado para escrever diálogos adicionais para o filme indicado ao Oscar The Front Page (1931). No mesmo ano atuou em uma cena deletada de Luzes da Cidade de Charles Chaplin e o trecho de sete minutos foi exibido publicamente pela primeira vez no documentário de 1983, Unknown Chaplin.

Citizen Kane Herman Mankiewicz, que mais tarde coescreveria Citizen Kane (1941), era amigo de Charlie Lederer e acabou conhecendo William Randolph Hearst por meio dessa relação. Apesar dessa proximidade, Mankiewicz via Hearst como uma figura manipuladora e até produziu, junto com Lederer, paródias dos jornais do magnata. Segundo a crítica Pauline Kael, Mankiewicz se interessava por trocar histórias com figuras poderosas como Hearst, tendo sido introduzido também à atriz Marion Davies, tia de Lederer, com quem este tinha uma relação muito próxima. Após concluir o roteiro de Cidadão Kane, Mankiewicz teria cometido um erro ao entregar uma cópia a Lederer, acreditando que ele apreciaria o trabalho. De acordo com Kael, Lederer ficou perturbado com o conteúdo e teria levado o roteiro para Davies e Hearst, o que desencadeou reações legais e políticas. Esse episódio, segundo essa versão, contribuiu para dificuldades na estreia do filme, incluindo o cancelamento de sua exibição no Radio City Music Hall e seu fracasso comercial inicial. No entanto, Lederer contestou essa narrativa em depoimento ao diretor Peter Bogdanovich, afirmando que Kael estava equivocada. Ele declarou que apenas devolveu o roteiro a Mankiewicz e que não o mostrou a Davies nem a Hearst. Além disso, ressaltou que a versão que leu não retratava diretamente essas figuras, indicando que o personagem principal era inspirado em outra pessoa, o que contradiz a ideia de que o conflito tenha surgido dessa suposta indiscrição.

Roteirista principal Charles Lederer é mais conhecido por sua co-autoria com Ben Hecht em filmes dirigidos por Howard Hawks. O primeiro deles sendo uma readaptação de The Front Page (1931), intitulada de His Girl Friday (1940) estrelado por Cary Grant e Rosalind Russell e atualmente considerada uma das melhores comédia românticas de Hollywood. Em parceria com a dupla escreveu o roteiro do clássico filme de ficção científica The Thing from Another World (1951), o cult Monkey Business (1952), e a comédia musical protagonizada por Marilyn Monroe, Os Homens Preferem as Loiras (1953) cuja canção "Diamonds Are a Girl's Best Friend" entrou para a cultura popular dos Estados Unidos. O roteirista também dirigiu filmes: Fingers at the Window (1942) e On the Loose (1951) e Never Steal Anything Small (1959). Porém todos foram ignorados ou receberam análises mistas da crítica especializada. Lederer era valorizado como roteirista de Hollywood, sendo membro de um outro círculo de escritores na Costa Leste, que incluía Moss Hart, George S. Kaufman, Howard Dietz, Robert Benchley, Dorothy Parker e o editor Harold Ross. Esses escritores se tornariam o núcleo da Mesa Redonda do Algonquin.

Broadway Em 1954, ele ganhou três prêmios Tony pelo musical da Broadway Kismet: como Melhor Produtor (Musical), como Melhor Autor (Musical) com Luther Davis e como coautor do libreto que, com vários colaboradores, contribuiu para a vitória na categoria de Melhor Musical. A peça ganhou uma adaptação cinematográfica em 1955 por Vincente Minnelli.

Vida pessoal Lederer e sua irmã Pepi foram criados por sua tia, a atriz Marion Davies. Ele cresceu em Hollywood e passou grande parte do tempo no Castelo Hearst em San Simeon, a residência principal de sua tia com o editor de jornal William Randolph Hearst. De acordo com o biógrafo de Davies, Fred Guiles, "Todos os próximos a Marion sabiam que Charlie era sua pessoa favorita depois de Hearst... Ele era seu cavaleiro andante e ninguém, nem mesmo Hearst, jamais contou apenas com Marion a partir de então; eles sabiam que também estavam lidando com o sobrinho Charlie". Lederer casou-se com Virginia Nicolson Welles, ex-esposa de Orson Welles, em 18 de maio de 1940, em Phoenix, Arizona. Na época, ele era uma "bom amigo" de Welles, observa o biógrafo de Welles, Peter Bogdanovich. O casal se divorciou em 1949. A segunda esposa do roteirista foi a ex-atriz Anne Shirley com quem permaneceu casado até a sua morte em 1976.

Amizades

Orson Welles A biógrafa de Welles, Barbara Leaming, afirma que, após Lederer se casar com a primeira esposa de Welles em 1940, "tentando sinceramente proteger os melhores interesses de Virginia e, particularmente, de sua filha Chris, Lederer teve desentendimentos acalorados com Orson, a quem acusou de não cumprir o acordo de divórcio. Agora, na mais improvável das reviravoltas, Orson e o espirituoso e inteligente Lederer tornaram-se grandes amigos novamente". Welles tornou-se famoso no mundo do cinema após o lançamento de Citizen Kane em 1941, uma história baseada em parte na vida de William Randolph Hearst. A história tenta desvendar o mistério da última palavra dita pelo editor de jornal Charles Foster Kane: "Rosebud". O crítico de cinema David Thomson chama a palavra de "o maior segredo do cinema". Em 1989, o autor Gore Vidal revelou que "Rosebud" era, na verdade, um apelido que Hearst usava de forma jocosa para se referir ao clitóris de sua amante, Marion Davies. A alegação sobre o significado de "Rosebud" foi repetida no documentário de 1996, The Battle Over Citizen Kane , e novamente no telefilme RKO 281 (1999). Anos mais tarde, após o fim do casamento de Welles com a atriz Rita Hayworth em 1948, ele se mudou para uma casa de praia ao lado da suntuosa propriedade de Marion Davies, onde sua primeira esposa Virginia e Lederer, seu marido, residiam. O cineasta morou lá com a atriz irlandesa Geraldine Fitzgerald e logo se tornou um "membro da família" de sua ex-esposa e Lederer. Chris Welles, em sua biografia, descreve como sua mãe e padrasto permaneceram amigos de Welles apesar dos problemas anteriores:

Ele parecia ser muito amigo do meu padrasto, Charlie Lederer. Ninguém que os observasse juntos imaginaria que minha mãe e Charlie haviam processado meu pai para aumentar minha pensão alimentícia. . . . Minha mãe e Charlie desistiram, e então voltamos ao "Orson, querido!" e ao convite diário para nos juntarmos ao ritual de martinis na varanda da frente ao pôr do sol. Era mais provável que ele chegasse sem avisar e irritasse a cozinheira ficando para o almoço ou jantar. Sempre vestido casualmente com calças de verão e camisa aberta, ele se comportava como se fosse um membro da nossa família, entrando e saindo como bem entendesse, sem precisar dar explicações

De acordo com o biógrafo de Welles, Frank Brady, Lederer e Welles às vezes passavam horas, ou dias, discutindo vários projetos cinematográficos ou propriedades relacionadas nas quais poderiam querer colaborar. Ambos adoravam ler The Glass Menagerie de Tennessee Williams. Após concluir Macbeth no final de 1947, Welles planejou viver e trabalhar na Europa para economizar nos custos de produção. Antes de partir, no entanto, ele contraiu catapora, que pegou de sua filha. Ele foi forçado a ficar no hotel Waldorf de Nova York por três dias, durante os quais Lederer permaneceu com ele enquanto trabalhavam em um roteiro para The Shadow, que Welles dirigiria. Mais tarde, depois que o realizador já estava morando na Europa, gastando a maior parte de seu tempo e energia tentando obter fundos para viver e produzir outros filmes, Lederer lhe emprestou US$ 250.000.

Harpo, Ben Hecht e uma lição merecida Lederer era muito amigo de Harpo Marx e os dois constantemente aprontavam pegadinhas nos bailes e festas que frequentavam no Castelo Hearst, a propriedade de William Randolph Hearst, como roubar todos os casacos de pele das convidadas e colocá-los sobre as estátuas do lado de fora da propriedade durante uma forte nevasca. Lederer era um amigo íntimo e de longa data do roteirista Ben Hecht , com quem coescreveu inúmeros roteiros. Hecht observou que Lederer era "meio judeu e meio irlandês" e, logo após conhecê-lo, telegrafou para Rose, sua esposa: "Conheci um novo amigo. Ele tem dentes pontiagudos, orelhas pontudas, tem dezenove anos, é completamente careca e fica de cabeça para baixo com frequência. Seu nome é Charles Lederer. Espero trazê-lo de volta à civilização comigo". A autobiografia de Hecht de 1963, Gaily, Gaily foi dedicada "Para Charles Lederer, para ler em sua banheira". O livro Shake Well Before Using, de Bennett Cerf, descreve um incidente durante a carreira de Lederer no Exército durante a Segunda Guerra Mundial, quando o roteirista se vingou de uma inglesa que vinha fazendo comentários antissemitas contra os judeus:

"Diga-me, por que você não gosta dos judeus?" "Ah, não sei. Acho que não tem motivo nenhum." Lederer puxou a porta [do armário de porcelana]. A maior parte da porcelana voou pela sala. "Bem, agora você tem um motivo".

Morte Segundo o biógrafo de Mankiewicz, Richard Meryman, Lederer "isolou-se nos seus últimos anos, contorcido pela artrite, viciado em narcóticos". Ele morreu em 5 de Março de 1976, com sessenta e cinco anos em Los Angeles, Califórnia.

Filmografia

Roteirista Kiss of Death (1995) (roteiro de 1947) Kismet (1967) (TV) (musical libretto) A Global Affair (1964) Mutiny on the Bounty (1962) Follow That Dream (1962) Ocean's 11 (1960) Can-Can (1960) It Started with a Kiss (1959) Never Steal Anything Small (1959) The Fiend Who Walked the West (1958) Tip on a Dead Jockey (1957) A Águia Solitária (1957) (adaptação) Gaby (1956) Kismet (1955) (musical, roteirista) Os Homens Preferem as Loiras (1953) O. Henry's Full House (1952) (não-creditado) Monkey Business (1952) Fearless Fagan (1952) The Thing from Another World (1951) Wabash Avenue (1950) (história) Red, Hot and Blue (1949) (história) I Was a Male War Bride (1949) The Lady from Shanghai (1947) (não-creditado) Her Husband's Affairs (1947) Ride the Pink Horse (1947) Kiss of Death (1947) Slightly Dangerous (1943) The Youngest Profession (1943) Love Crazy (1941) Comrade X (1940) I Love You Again (1940) His Girl Friday (1940) Broadway Serenade (1939) Within the Law (1939) Double or Nothing (1937) Mountain Music (1937) Baby Face Harrington (1935) (diálogos adicionais) Cock of the Air (1932) The Front Page (1931) (diálogos adicionais)

Diretor Never Steal Anything Small (1959) On the Loose (1951) Fingers at the Window (1942)

Ator Luzes da Cidade (1931) (cena deletada) Entregador de telégrafos, posteriormente incluído no documentário Unknown Chaplin.

Na Cultura Popular No filme Mank (2020) de David Fincher o roteirista foi interpretado por Joseph Cross.

Notas

Referências

Ligações externas Charles Lederer no IMDb Documentos da Família Davies e Lederer, Biblioteca Margaret Herrick, Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.